1 de jun de 2015

That's what I like about you





Querido Ig,

Você nunca lerá isto enquanto eu estiver viva. Não tenho certeza de que quero que leia mesmo depois que eu morrer.

Ai, como é lento escrever assim. Acho que não me importo. Ajuda a passar o tempo enquanto estou presa em uma sala de espera aguardando o resultado desse ou daquele exame. Também me força a dizer apenas o que tem de ser dito e nada mais. 

O tipo de câncer que tenho é o mesmo que matou minha irmã, um tipo conhecido por afetar famílias. Não vou aborrecê-lo com a genética. Ainda não está avançado e tenho certeza de que, se você soubesse, iria insistir comigo para que lutasse. Sei que devia, mas não vou. Resolvi que não quero partir como minha irmã. Não quero esperar até ficar tomada pela feiura, não quero magoar as pessoas que amo e que têm me amado, o que quer dizer você, Ig, e meus pais.

A Bíblia diz que suicidas vão para o inferno, mas inferno é aquilo pelo que minha irmã passou quando estava morrendo. Você não sabe disso, mas minha irmã estava noiva quando foi diagnosticada. O noivo a deixou meses antes de ela morrer. Ela o foi afastando, dia a dia. Queria saber quanto tempo ele esperaria  depois  que  ela  fosse  enterrada  para  trepar  com  outra  pessoa. Queria saber se ele usaria a tragédia dela para despertar a solidariedade de outras garotas. Ela foi horrível. Eu a teria deixado.

Tenho medo de que, se eu lhe disser que estou doente, você abra mão de seu futuro, me peça em casamento e eu seja fraca e diga sim, e aí você ficará acorrentado a mim, olhando enquanto eles cortam pedaços de mim e eu encolho, fico careca e faço você passar pelo inferno, para depois eu morrer
de qualquer maneira, tendo arruinado o melhor de você nesse processo. Você quer tanto acreditar que o mundo é bom, Ig, que as pessoas são boas. E sei que, quando estiver realmente doente, não conseguirei ser boa. Sei que ficarei como minha irmã. Isso está em mim, sei como machucar as pessoas e talvez não consiga evitar. Quero que se lembre do que há de bom em mim, não do mais terrível. As pessoas que você ama deveriam poder guardar o pior só para elas mesmas.

Você não imagina como é difícil não falar sobre essas coisas com você. Acho que é por isso que estou escrevendo isso. Porque preciso falar com você, e este é o único modo. Uma conversinha de mão única, não é?

Você está tão animado para ir para a Inglaterra, para se enterrar até o pescoço no mundo. Lembra aquela história que você me contou da trilha Evel Knievel e do carrinho de supermercado? Você é assim todo dia. Pronto para descer o desfiladeiro íngreme da sua vida nu e ser atirado na corrente humana. Salvar os que estão se afogando na injustiça.

Posso machucar você apenas o bastante para que vá embora. Não anseio por isso, mas será mais bondoso do que deixar esta coisa ir até o fim.

Quero que você encontre uma moça com um sotaque cockney bem cafona, a leve  para  o  seu  apartamento  e  a  faça  tirar  a  calcinha.  Engraçadinha, imoral e literata. Não tão bonita quanto eu, não sou tão generosa assim, mas tudo bem se ela não for horrorosa. E depois espero que ela te dê um pé
na bunda e que você passe para a próxima. Alguém melhor. Que seja séria e carinhosa e sem histórico familiar de câncer, doenças cardíacas, Alzheimer ou qualquer dessas outras coisas horríveis. Também espero que a essa altura eu já esteja morta há muito tempo, de modo que não precise saber de nada
sobre ela.

Sabe como eu quero morrer? Na trilha Evel Knievel, despencando por ela em meu próprio carrinho. Poderia fechar os olhos e imaginar seus braços em volta  de  mim.  Depois  bater  em  uma  árvore.  Ela  nunca  saberia  o  que aconteceu com ela. É assim. Gostaria muito de acreditar em um Evangelho
Segundo Mick e Keith, no qual eu não posso ter o que quero – que é você, Ig, nossos filhos e nossos ridículos sonhos –, mas pelo menos ter o que preciso, que é um fim rápido e repentino, e a certeza de que você escapou ileso.

E você terá uma esposa e mãe gorda e bondosa que lhe dará filhos, e será um pai maravilhoso, feliz e cheio de energia. Você vai ver o mundo inteiro, cada um de seus cantos, verá dor e vai aliviar um pouco dela. Você terá netos e bisnetos. Você vai ensinar. Vai dar longos passeios pela mata. Em um deles, quando já estiver muito velho, vai se ver diante de uma árvore com uma casa nos galhos. Estarei lá esperando por você. Estarei esperando à luz de velas em nossa casa na árvore da mente.

São  muitos  pontos  e  traços.  Dois  meses  de  trabalho  até  aqui.  Quando comecei a escrever, o câncer era uma ervilha em um seio e menor que uma ervilha em minha axila esquerda. E agora, para atualizar você, ele está… bem. De coisas pequenas, Mama, um dia nascem coisas grandes.

Não tenho certeza se precisava ter escrito tanto. Provavelmente poderia ter me poupado o esforço e apenas copiado a primeira mensagem que lhe mandei, piscando para você com meu crucifixo. NÓS. Isso diz praticamente tudo. E aqui está o resto: Eu te amo, Ig Perrish.

A sua garota, Merrin Williams

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